O teatro amanheceu de luz baixa em Macapá. Como quando o ensaio termina, as cadeiras ainda guardam calor humano e o silêncio não é vazio, é reverência. Morreu Amadeu Lobato, um homem que passou a vida ensinando que o palco também é abrigo, escola e resistência.
Quem foi Amadeu Lobato para além do palco
Amadeu morreu aos 70 anos, na madrugada desta terça-feira (6), no Hospital de Clínicas Alberto Lima, em Macapá. Enfrentava um câncer no fígado. A notícia correu rápido entre artistas, técnicos, alunos e amigos, como costuma acontecer quando cai alguém que sustentava parte da estrutura.
Diretor, ator, dramaturgo e produtor cultural, ele construiu uma trajetória marcada pela formação de gerações. Não apenas ensinava a atuar, ensinava a permanecer. Em cena e na vida.
O velório ocorre a partir das 9h desta terça-feira (6), na Funerária Centropax do Brasil, na Avenida Mendonça Furtado, bairro Santa Rita. O sepultamento está previsto para as 16h.
Como o teatro virou missão em Macapá
Ao longo de quatro décadas, Amadeu transformou o teatro em exercício coletivo. Seus trabalhos não buscavam apenas aplauso, buscavam sentido. Era comum vê-lo cercado de jovens, dividindo texto, silêncio e disciplina.
Mesmo diante das dificuldades pessoais e da escassez histórica de políticas culturais, manteve-se ativo. O palco nunca foi fuga, foi enfrentamento. Em cada montagem, havia um compromisso silencioso com a cidade.
Uma Cruz para Jesus e a fé encenada

Entre suas obras mais emblemáticas está Uma Cruz para Jesus, encenada há 46 anos no anfiteatro da Fortaleza de São José de Macapá. Ali, fé e arte se misturavam sem espetáculo vazio. A Paixão de Cristo ganhava linguagem própria, sotaque local e humanidade crua. Era teatro como rito. Não para convencer, mas para provocar reflexão.
O legado que não se fecha com o pano
Amadeu Lobato nasceu em 9 de março de 1955. Seu legado não cabe em currículo nem em nota oficial. Ele permanece nos corpos que aprenderam a ocupar o palco, nas vozes que venceram o medo, nos bastidores onde alguém ainda repete uma orientação que ouviu dele anos atrás.
Quando um homem como Amadeu se vai, o teatro não fecha. Ele respira fundo, ajusta a luz e segue. Porque alguém ensinou que arte, quando é de verdade, não morre.
Nota de pesar pelo falecimento do artista amapaense Amadeu Lobato
O Governo do Estado do Amapá manifesta profundo pesar pelo falecimento do professor de teatro, dramaturgo, diretor e produtor cultural Amadeu Lobato, aos 70 anos, em decorrência de um câncer de fígado, nesta terça-feira(6).
Referência das artes cênicas amapaenses, Amadeu exercia a gerência do Teatro das Bacabeiras, função que desempenhava com zelo e dedicação. Recentemente, esteve presente na cerimônia de lançamento da revitalização do local, um marco para a cultura amapaense.
Há 46 anos, o público é prestigiado pelo espetáculo “Uma Cruz para Jesus”, obra que se consolidou como símbolo da vitalidade, da persistência e da identidade do teatro no estado. Idealizado e dirigido por Amadeu Lobato, o espetáculo encenado no entorno da Fortaleza de São José de Macapá tornou-se não apenas um marco cultural, mas uma verdadeira escola de formação artística.
Grande parte dos profissionais que hoje atuam nas artes cênicas do Amapá passou pelos ensinamentos e pela generosidade de Amadeu, cuja trajetória se confunde com a própria história do teatro amapaense. Ele manteve viva sua criação com coragem e amor à arte, conquistando, ano após ano, o reconhecimento e o aplauso fiel do público.
O Governo do Amapá se solidariza com familiares, amigos, artistas e com toda a comunidade cultural neste momento de dor, reconhecendo o imensurável legado deixado por Amadeu Lobato para a cultura, a educação e a identidade do povo amapaense.
Que sua arte permaneça viva e inspire futuras gerações.
