O plenário estava silencioso quando a sentença caiu como pedra: 17 anos e 3 meses de prisão. Uma morte banal, causada por um cigarro, ganhava peso definitivo na voz firme do juiz.
O relógio marcava 12h57 quando o juiz Mateus Pavão leu a decisão final. O réu, Joel Ricardo Ferreira Romano Moutinho, não estava lá, intimado por edital, não apareceu. Mas sua ausência não impediu que a Justiça se movimentasse.
Os jurados responderam: materialidade, autoria e não absolvição por unanimidade. “Sim” para motivo fútil. “Sim” para a impossibilidade de defesa da vítima. A sentença veio firme, sem rodeios: regime fechado e prisão imediata, como manda a lei para condenações acima de 15 anos .
A história contada ali, entre pastas, laudos e memórias arranhadas, cabia inteira dentro de um objeto pequeno, leve, quase nada: um cigarro.
Foi na madrugada de 7 de maio de 2021, por volta das 4h30, na Passagem Santa Catarina, bairro Nova Esperança. Robson Bruno e Joel bebiam juntos, dividindo garrafas e conversas como tantas vezes fazem aqueles que têm mais cansaços do que planos.
Mas naquele dia, diz o processo, o pedido por um cigarro acendeu o desentendimento. Um gesto rápido, uma resposta atravessada e o clima virou lâmina. Joel surpreendeu Robson com golpes de faca. Atingiu órgão vital. A morte foi imediata. Dessa cena ninguém viu início. Só o fim.
A testemunha Robenilson Bruno, ouvido em plenário, falou com o peso de quem carrega lembranças que não pediu. Contou que tudo foi rápido, que a briga cresceu sem aviso, que a madrugada virou silêncio pesado.
O corpo de Robson ficou ali, perto da ponte, enquanto a rua tentava entender como um cigarro, esse símbolo de descanso, pausa, vício ou conversa, podia virar gatilho de morte.
Robson deixou três filhos pequenos, crianças que agora crescem com um pedaço a menos, tentando aprender que a ausência também faz barulho. Foi por elas, também, que os jurados confirmaram a qualificadora. Foi por elas que a pena ficou pesada.
O tribunal esvaziou, as cadeiras voltaram ao silêncio e o papel ficou carimbado com a decisão. Mas na ponte de madeira da Nova Esperança, onde tudo começou, ainda parece haver uma pergunta pendurada no ar:
Como algo tão pequeno pode carregar uma tragédia inteira?
