No fim de cada ano, quando as estatísticas ganham manchetes e os balanços tentam medir a vida, a Defensoria Pública do Amapá (DPE-AP) abre uma janela discreta: por trás dos números, surgem nomes, rostos e histórias que bateram à porta buscando justiça. É como se cada atendimento fosse um pequeno farol aceso no meio das urgências cotidianas.
O que significam 270 mil pedidos de ajuda
A DPE-AP encerrou 2025 com 270 mil atendimentos, um aumento de 21% em relação aos 223 mil do ano anterior. A meta era alcançar 240 mil, mas a procura ultrapassou qualquer previsão.
Não é só volume: é dimensão social. Um terço do Amapá, segundo as estimativas do IBGE, passou pela instituição ao longo do ano.

O defensor público-geral, José Rodrigues, insiste que o número não cabe numa planilha: “Cada atendimento é uma pessoa, uma família, uma história. Esses são os índices que realmente importam.”
Como a Defensoria transforma vidas no cotidiano
Entre os atendimentos mais frequentes estão os casos de direito de família, saúde, grupos vulneráveis e mediações. Foram 37.355 atendimentos apenas em ações de guarda e 25.236 reconhecimentos de paternidade, biológica ou socioafetiva.
É nesse território íntimo, onde vida e papel se entrelaçam, que a Defensoria atua como ponte.
Quando a paternidade encontra seu nome
No mutirão Meu Pai Tem Nome, Kairo Ribeiro conseguiu oficializar a paternidade socioafetiva da filha depois de 18 anos. “Dificultava tudo. Era como se faltasse uma parte da nossa história. Consegui garantir os direitos totais da minha filha”, contou.
A frase dele resume o que o dado estatístico não entrega: o alívio de existir oficialmente na vida de alguém.
O que nasce quando um documento abre caminhos
A assistida Michele Portilho procurou a Defensoria para regularizar a Certidão de Nascimento das filhas. Saía apenas com a documentação resolvida, mas voltou com algo mais raro: oportunidade.
Durante o atendimento, descobriu uma vaga em um curso de confeitaria oferecido em parceria com o Senac. “Melhorou minhas vendas, aumentou minha renda. Foi um grande aprendizado”, disse.
Ali, a Defensoria cumpriu duas funções: garantiu um direito básico e reacendeu um horizonte profissional.
A busca pela solução que evita o litígio
A conciliação também teve presença importante em 2025: foram 12.385 atendimentos, numa tentativa de resolver conflitos antes que se tornem processos.
É a justiça chegando de forma mais rápida, menos desgastante, mais humana.
Outros números que revelam urgências do Amapá
- Ações de saúde:026
- Direitos de pessoas autistas:731
- Atendimentos a mulheres vítimas de violência:949
- Curatelas:821
- Superendividamento:349
- Demandas de energia e água:314
- Atendimentos voltados à população idosa:139

Cada número tensiona um lado diferente do estado; juntos, compõem um mapa das necessidades mais profundas dos amapaenses.
O que fica depois do último atendimento
A Defensoria fecha 2025 com a sensação de que o desafio cresce na mesma velocidade que a demanda. Mas também com a certeza de que, enquanto houver alguém batendo à porta, a instituição seguirá como essa casa de portas abertas que costura cidadania no silêncio diário.
No fim, fica a impressão de que a Defensoria não atende apenas casos; atende a esperança possível de um estado inteiro.
