Há anos em que a esperança entra pela porta da frente; em outros, ela precisa atravessar muros altos, corredores estreitos e portas de aço. Em 2025, a educação conseguiu fazer esse percurso dentro do sistema prisional do Amapá e voltou carregando histórias reconstruídas.
Quando a palavra escrita vira gesto de liberdade
No balanço anual divulgado pelo Governo do Amapá, o Instituto de Administração Penitenciária (Iapen) apresentou números que, mais do que estatísticas, soam como pequenas vitórias silenciosas.
Cinco unidades prisionais zeraram o analfabetismo: UPP José Éder, Centro de Custódia Especial, Penitenciária Feminina, e os Centros de Custódia de Oiapoque e Novo Horizonte.
Foi o resultado direto do Programa Brasil Alfabetizado e do Promei, que levaram o primeiro caderno, a primeira letra e o primeiro entendimento de si mesmo a centenas de pessoas privadas de liberdade.
“É mais do que uma meta pedagógica; é uma medida de segurança”, resume Henrique Lemos, diretor da DRC. “Quando alguém aprende a ler, reduz a vulnerabilidade dentro do cárcere e aumenta a chance de não voltar.”
Por que os números revelam uma virada cultural?
A participação em exames nacionais explodiu:
• +59% de inscritos no Enem PPL
• +223,38% no Encceja PPL
Números assim não surgem por acaso. Eles denunciam um ambiente que, aos poucos, troca a repetição da rotina prisional pela inquietação de quem descobre que pode aprender.
“Estamos vendo uma mudança de cultura”, diz Ozeias Ferreira, gestor da Uned. E, em 2025, essa mudança passou a ocupar mais salas que celas.
Quando o talento atravessa o muro
Da Penitenciária Feminina ao Centro de Custódia, projetos educacionais ganharam vida e repercussão nacional.
Um reeducando amapaense alcançou nota 9,25 no Concurso de Redação da DPU, entre as maiores da Região Norte e do país, prova de que a escrita, quando encontra espaço, surpreende.
O projeto Reescrevendo Histórias, voltado à leitura e interpretação, recebeu reconhecimento no Prêmio VivaLeitura, reforçando que livros, dentro de um presídio, são também pontes.
O que a educação muda quando entra no cárcere?
Ao longo de 2025, a Uned realizou 8.002 atendimentos pedagógicos e profissionalizantes. Cada número representa alguém que encontrou outra maneira de existir no mundo:
- um homem que voltou a escrever o próprio nome;
- uma mulher que fez sua primeira redação;
- um jovem que descobriu a possibilidade de terminar os estudos.
Educar, ali, não é só uma política pública: é uma forma de devolver o futuro.
O balanço confirma um movimento que ainda não cabe nos relatórios. Dentro de um sistema marcado por rotinas duras, a educação abriu frestas por onde a luz entrou devagar, mas entrou.
E, quando a palavra cruza o pátio, ela não volta a ser apenas palavra: vira horizonte.
Se 2025 mostrou alguma coisa, foi isso, até os muros mais altos cedem quando alguém aprende a ler o próprio caminho.
