A água do batismo ainda não havia secado dos ombros de Luiz Pinto Rodrigues, 24 anos, quando a morte chegou para ele, mostrando que a violência não perdoa nem o recomeço.
Era manhã de sábado (26), céu claro sobre o bairro Zerão, zona sul de Macapá. Luiz acabara de ser batizado em uma igreja evangélica, entre cânticos, palmas e promessas de renascimento. A cerimônia havia emocionado até os mais céticos. Um pastor orgulhoso ainda mostraria, depois, aos policiais, uma foto do ritual: Luiz de branco, olhos fechados, entregando-se a um novo caminho. A imagem, hoje, é quase uma ironia cruel.
Minutos depois de sair do templo, Luiz foi interceptado na passarela da 2ª avenida do bairro Universidade. Dois homens, em uma bicicleta, o abordaram com a mesma frieza de quem entrega um panfleto. Mas o conteúdo era muito mais brutal: tiros, vários, certeiros. Sem chance de defesa, ele caiu com o corpo atravessado por balas. O sangue ainda escorria quando os primeiros fiéis chegaram ao local. Muitos haviam cantado com ele horas antes.
A Polícia Militar confirmou que os criminosos fugiram na bicicleta, como fantasmas de um cotidiano que a cidade já começa a naturalizar. Um crime com a mesma praticidade de uma entrega de lanche: rápida, anônima e certeira.
Luiz não tinha ficha criminal, mas também não era um anjo. Dois boletins de ocorrência. Um por importunação, outro por violência doméstica. Isso, claro, não justifica sua morte, mas talvez ajude a entender os bastidores de uma execução que parece ter sido encomendada, e não improvisada.
Agora, a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) tenta juntar os cacos da história para entender quem decidiu que Luiz não merecia recomeçar. As investigações começaram, e qualquer informação pode ser a peça que falta nesse quebra-cabeça macabro. O número para denúncias anônimas é (96) 99170-4302.
Enquanto isso, na igreja do Zerão, o tanque batismal ainda está cheio. Mas agora, além de água, há um silêncio estranho no ar. Um silêncio que pesa mais que o pecado e mais que o perdão.
