Foi uma noite para não esquecer - ou talvez para esquecer logo. Mais de 300 mil pessoas se amontoaram na Praça Jacy Barata Jucá no último sábado (19), embaladas pelas aparelhagens Hipper Som, Tropical, J. Som e o Rubi.
Em meio às luzes coloridas e batidas sintetizadas que pareciam hipnotizar o povo, algo estranho pairava no ar. Uma espécie de catarse coletiva, onde a lucidez foi facultativa e a sobriedade, artigo de luxo. O “rock doido” honrou o nome com rigor etílico. Bêbados tropeçando no próprio corpo, casais dançando em transe e grupos urrando como se a madrugada fosse um campo de batalha sem regras.
O cenário se dissolvia aos poucos, como no desfecho do filme O Perfume, onde o êxtase desgovernado substitui o senso de realidade. Lá, era a fragrância mágica que desarmava multidões. Aqui, bastava a mistura de álcool barato, som estrondoso e um calor que parecia ferver os neurônios.
Foram registradas brigas, empurrões e quedas. Mas o ápice do absurdo foi um vídeo que viralizou nas redes: um homem, completamente entregue à selvageria da noite, é flagrado defecando no chão da praça - e logo depois, em cena grotesca, recebe das mãos de um parceiro um saco plástico (ou papel, ninguém sabe ao certo) para se limpar. Tudo isso sob o olhar indiferente da multidão, que dançava como se nada fosse anormal.
A festa continuou. E esse talvez seja o dado mais perturbador: a naturalização do grotesco. A cidade parecia anestesiada. O grito que deveria soar como alerta virou parte da batida. O escândalo se transformou em espetáculo. A praça virou palco da degradação humana com trilha sonora de brega romântico.
Macapá amanheceu com ressaca moral. E na Jacy Barata, o cheiro que ficou não era de perfume. Era de descaso.
Apesar das cenas lamentáveis, é importante ressaltar que muitos foram à Praça Jacy Barata Jucá com o único intuito de curtir a festa em família e entre amigos, desfrutando da música e da alegria do evento, sem se envolverem nos excessos que mancharam a noite.
