Durante anos, Vânia aprendeu exatamente até onde podia ir. Depois daquele ponto, só a saudade seguia. A antiga passarela de madeira, sem acessibilidade, impedia o avanço de quem passou a depender da cadeira de rodas.
Com a entrega de 830 metros de passarela em concreto armado na Ponte do Atalaia, ocorrida na quarta-feira (7), essa geografia íntima mudou. Ao entrar novamente no espaço, Vânia não reencontrou apenas o caminho físico, mas versões de si mesma que ficaram esperando do outro lado.
“Só de entrar aqui, o coração acelerou. A última vez que eu estive aqui foi para fazer um trabalho social na associação, ainda andando. Depois, eu só ia até onde a cadeira chegava”, contou.
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Quando acessibilidade também é afeto
O retorno de Vânia à passarela escancara algo que planilhas não medem. A acessibilidade não é apenas rampa, largura ou concreto. É poder chegar. É não precisar pedir. É existir em circulação.

Foi naquela mesma comunidade que ela encontrou acolhimento depois do assalto que a deixou paraplégica. O Igarapé da Fortaleza, diz ela, nunca virou as costas. Esperou. E agora abriu passagem.
“O povo daqui é extremamente solidário”, resume, como quem explica um território inteiro em uma frase curta.
Uma obra que muda o cotidiano
A entrega da passarela beneficia diretamente mais de 120 famílias, conectando a comunidade à malha urbana de Santana. Mas o efeito se espalha em detalhes pequenos: carrinhos que passam, mercadorias que chegam, crianças que ocupam o chão com brincadeiras.

Obediane dos Santos Melo, 34 anos, desenhou uma amarelinha com giz em frente à casa para a filha Vic brincar. Antes, não dava. Agora, dá. Às vezes, política pública é isso: permitir o jogo.
O concreto, o poder e o tempo

A obra foi entregue pelo governador Clécio Luís, ao lado do prefeito Bala Rocha. Técnicos falam de pilares, largura, durabilidade. Moradores falam de segurança, passagem, futuro.
O programa Ponte Firme já soma mais de 9 mil metros de passarelas em 2025, alcançando comunidades de Macapá, Santana, Laranjal do Jari, Oiapoque e Bailique. Números importam. Mas não explicam o que acontece quando alguém volta a ser visto no próprio bairro.
Quando Vânia cruza a ponte, não inaugura só uma obra. Inaugura um reencontro. A passarela fica. O concreto resiste. Mas o que realmente atravessa o Igarapé da Fortaleza é a certeza de que dignidade também se constrói passo a passo, ou roda a roda, sobre caminhos que finalmente permitem ir e voltar.
