Por Renato Flexa - A Prefeitura de Macapá e sua conhecida e comprovada maquiagem de fatos. Vamos lá. Ler a descrição oficial do chamado Parque Linear da Zona Norte exige algum treino. Não de urbanismo, mas de ironia. Para quem já atravessou planos diretores, parques improvisados e obras cosméticas travestidas de política pública, o nome do local inaugurado há poucos dias provoca aquele sorriso enviesado, típico de quem reconhece de longe uma velha confusão conceitual reapresentada como novidade.
Convém chamar as coisas pelo nome correto. O que se inaugurou no canteiro central de Macapá, ao longo da BR 210, não é um parque linear. No máximo, e com boa vontade técnica, trata se de uma ciclovia alargada, acompanhada de alguns equipamentos e árvores bem comportadas.
Parque linear, no urbanismo sério, não nasce da soma de quilômetros, postes de LED ou academias ao ar livre. Ele surge da estrutura urbana, da continuidade ambiental, da integração com a malha da cidade e, principalmente, da capacidade de requalificar o território ao redor. Nada disso aparece com clareza ou consistência na narrativa oficial.
O texto institucional da PMM prefere listar atributos como quem confere mercadoria em vitrine. Ciclovia. Pergolados. Calistenia. Iluminação. Árvores transplantadas. Totens publicitários. Tudo muito alinhado, tudo muito fotogênico. O problema é simples e antigo. Beleza não substitui função urbana.
Não é indignação imediata. É aquele sorriso torto, meio cínico, de quem já viu esse filme antes. O urbanismo como peça publicitária. A cidade como frase de efeito. A obra como promessa que se resolve no folder.
Instalar um suposto parque no canteiro central de uma rodovia é um paradoxo com paisagismo. Parque pressupõe acesso transversal, permeabilidade urbana, relação direta com bairros, conforto e permanência segura. O canteiro central de uma BR, mesmo urbanizado, segue como espaço residual, cercado por tráfego intenso, ruído constante, poluição e travessias hostis. Isso não é parque. É intervalo asfaltado com vegetação ornamental.
O próprio argumento inicial já entrega o diagnóstico. Está mais para ciclovia com amenidades. A frase resume o projeto melhor do que qualquer release.Falta densidade de uso. Falta programa urbano. Falta relação com a cidade real. Não há equipamentos culturais. Não há espaços qualificados de encontro. Não há articulação com comércio, moradia ou transporte público. Falta até a leitura contínua de paisagem que define um parque linear de verdade.
A comparação com a Doca, em Belém (PA), surge como ferida aberta. Lá houve reconversão urbana. Não decoração. O espaço deixou de ser obstáculo e virou destino, articulando lazer, turismo, economia urbana e identidade. Em Macapá, a proposta limita se a enfeitar o que já era sobra.
À primeira vista, o chamado Parque Linear da Zona Norte se revela como aquilo que de fato é: uma solução oportunista, rápida e de fácil execução, pensada para caber no discurso verde e na foto oficial. Vende integração urbanística e consciência ambiental, mas entrega um espaço improvisado no canteiro central de uma rodovia, tratado como sobra urbana maquiada. Não houve debate público, não houve consulta à comunidade, não houve projeto apresentado à cidade. Houve gabinete, decisão fechada e inauguração coreografada.
O cidadão entrou apenas no final, como figurante convidado a usar e agradecer. Bancos, pergolados, árvores transplantadas e uma ciclovia sem destino aparecem espalhados como cenário e compõem uma estética agradável que tenta disfarçar a ausência de função urbana real. Isso não é planejamento. É decoração com pretensão técnica.
Uma obra pode ser correta do ponto de vista construtivo, bonita ao olhar apressado e cara no orçamento e ainda assim fracassar como política pública. Basta não responder a uma demanda social concreta, ignorar o contexto cultural e simbólico do lugar e prescindir da participação popular. Nesse caso, o projeto serve mais à imagem do gestor do que às necessidades da população. Produz discurso, não pertencimento. Produz vitrine, não cidade.
O resultado previsível é a subutilização, o desgaste e o vandalismo. Chamaram de parque linear porque marketing urbano soa melhor do que obra improvisada sem escuta. No fim, a cidade vira cenário, o cidadão vira figurante e a democracia urbana fica do lado de fora, à margem. Porque ninguém se apropria do que não ajudou a construir, nem cuida do que não reconhece como seu.
O investimento de 6,2 milhões de reais não é pequeno, mas impressiona menos do que deveria. Pequena é a ambição e competência. Gasta se como parque, entrega se como ciclovia melhorada, divulga se como grande obra estruturante e revolução urbana.
O diagnóstico final é técnico e desconfortável. Não se trata de parque linear. Trata se de um projeto moldado pela lógica da vitrine, pensado para inauguração, fotografia e texto oficial, não para transformar a cidade. Ou seja, urbanismo espetáculo e planejamento tecnocrático.
Bonito, sim. Útil, em parte. Parque linear, definitivamente, não.
Renato Flexa é Jornalista amapaense e redigiu o artigo após conversar com dois competentes e experientes arquitetos que preferem ficar no anonimato.
