Mais uma vez, Macapá se destaca negativamente em um ranking nacional, amargando as últimas posições quando o assunto é saneamento básico. Segundo o Ranking do Saneamento 2025, divulgado nesta terça-feira (15) pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados, a capital amapaense figura entre os 20 municípios com os piores índices do país.
O levantamento, que considera dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) referentes ao ano de 2023, expõe a negligência com serviços essenciais em detrimento de uma controversa "cortina de fumaça" de eventos promovidos pela gestão do prefeito Antônio Furlan.
Além de Macapá, a pesquisa aponta outras capitais na lista dos piores, como Manaus (AM), Recife (PE), Maceió (AL), São Luís (MA), Belém (PA), Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO). No geral, a realidade dos 100 maiores municípios do Brasil está longe das metas de universalização.

O investimento médio entre os 20 piores foi de apenas R$ 78,40 por habitante entre 2019 e 2023, 65% abaixo do ideal de R$ 223 por habitante/ano. A média de perdas na distribuição de água também é alarmante, chegando a 45,43% entre os maiores municípios, muito acima do limite aceitável de 25%.
Para Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, a evolução no investimento em saneamento básico foi "muito abaixo do necessário", passando de R$ 111 para R$ 126 por habitante ao ano.
Prioridades questionáveis
Enquanto a maioria da população macapaense convive diariamente com a precariedade do saneamento – com esgoto a céu aberto, problemas no abastecimento de água e a ausência de infraestrutura básica –, a administração municipal tem sido alvo de críticas por destinar recursos significativos para eventos e shows nacionais. Recentemente, uma licitação milionária para a estrutura de eventos gerou forte controvérsia, levantando suspeitas de fraude e direcionamento em meio a uma grave crise financeira que afeta até o pagamento de terceirizados e a coleta de lixo.
A população, que aguarda por melhorias fundamentais em sua qualidade de vida e saúde pública, vê com preocupação a aparente desatenção da gestão para com os pilares básicos da infraestrutura urbana. A prioridade de "inebriar a população" com entretenimento, em vez de investir em saneamento, expõe uma desconexão entre as necessidades urgentes da cidade e as escolhas orçamentárias da prefeitura.
O custo da negligência
Os baixos índices de saneamento básico não são apenas números; eles se traduzem em problemas de saúde pública, degradação ambiental e impacto direto na qualidade de vida dos cidadãos. Doenças de veiculação hídrica, proliferação de vetores e a desvalorização imobiliária são algumas das consequências diretas da falta de investimentos em saneamento.
A persistência de Macapá nas últimas posições dos rankings de saneamento é um reflexo de décadas de descaso, mas também da falta de prioridade por parte da atual gestão em reverter esse quadro. Enquanto outras capitais buscam universalizar os serviços, Macapá parece se contentar em promover espetáculos, deixando as questões mais urgentes da cidade em segundo plano.
Posição dos envolvidos: prefeitura silencia, CSA aponta evolução
A reportagem buscou o posicionamento dos principais envolvidos no cenário do saneamento básico em Macapá.
A Prefeitura de Macapá não se manifestou sobre a pesquisa.
Já a Concessionária de Saneamento do Amapá (CSA), responsável pelos serviços no estado, informou que: "O ranking de saneamento de 2025, apresentado pelo Instituto Trata Brasil, reflete dados levantados e analisados a partir dos indicadores do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2023, período em que a CSA efetivou um ano e meio de operação na área urbana do estado. Importante destacar que os números que integram o relatório também foram gerados pela prestadora dos serviços responsável pela área rural. A concessionária destaca ainda que, apesar do pouco tempo de operação dos serviços até 2023, o relatório apresenta o Amapá em ascensão, em uma posição diferente do resultado que vinha ocupando no mesmo ranking desde 2024. Esta evolução reflete o empenho das operações da empresa para mudar este cenário em menor tempo possível. Para a construção deste esperado novo momento, a empresa já investiu mais de R$ 325 milhões em três anos de atuação. Por fim, a CSA reafirma seu compromisso com o estado, com a mudança da realidade do saneamento e com o trabalho diário para levar mais saúde e qualidade de vida para os amapaenses."
