A voadeira cortava o rio como quem rasga o escuro com uma lâmina fina. Dentro, três mulheres grávidas, três futuros pendurados no balanço da água. Era domingo à noite, e o Amazonas estava agitado, como se também soubesse que algo estava para nascer e para se perder.
Entre Afuá, no Pará, e a Rampa do Açaí, no Amapá, o rio virou sala de parto, corredor de hospital e, para uma família, corredor de despedida.
Quando o rio vira estrada para a vida
Em terra firme, uma ambulância chega em minutos. No rio, o tempo escorre diferente.
A voadeira seguia sacolejando com três gestantes em situação de emergência. O motor roncava como quem pede passagem, mas a correnteza não abre espaço. O cheiro de combustível misturava com o medo.
Foi nesse intervalo entre uma onda e outra que um bebê nasceu. E foi também nesse mesmo intervalo que outro bebê se foi.
O que significa parir em alto rio?
Enquanto uma mulher segurava um choro recém-nascido, outra segurava o vazio. A terceira seguia esperando, com o corpo em alerta, como se cada balanço da voadeira fosse um aviso.
Quem cuida de quem mora onde o asfalto não chega?
Para quem vive nas comunidades ribeirinhas do Amapá e do Pará, o hospital mais próximo quase sempre é o outro lado do rio. E, às vezes, esse outro lado está a horas de distância.
Os pilotos de voadeira, enfermeiros e técnicos de enfermagem que atuam nas rotas ribeirinhas enfrentam esse tipo de risco todos os dias. Em meio a rios agitados, baixa visibilidade e longas distâncias, são eles que garantem que pacientes em situação crítica tenham alguma chance de chegar ao atendimento médico.
O que ficou daquela travessia
Naquela noite, o rio entregou uma criança ao mundo e levou outra de volta para si. A terceira ainda carregava dentro de si uma espera.
O Amazonas seguiu correndo, indiferente e eterno. Mas, para quem estava ali, aquela travessia nunca mais vai acabar.
