A renúncia do prefeito Antônio Furlan veio rápida. Um dia após a Polícia Federal bater novamente à sua porta, com a Operação Paroxismo, ele deixou o cargo e deixou também a cidade sem explicações.
A carta foi protocolada às 8h10 da manhã, um dia depois da Operação Paroxismo, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de fraude e desvio de recursos na construção do Hospital Geral Municipal.
A carta de renúncia, curiosamente, estava datada do próprio dia da operação.
Como quem escreve a última linha antes de apagar a luz.
Mas o problema não é apenas a saída. O problema é o que ficou.
Durante seis anos de mandato, a gestão não construiu uma única casa popular em Macapá.
E as unidades habitacionais que já estavam prontas, herdadas de programas anteriores, também não chegaram às famílias.
A Justiça suspendeu o processo de seleção e entrega das casas do Residencial Janary Nunes I e II após identificar irregularidades no edital.
Resultado:
nem construir,
nem entregar.
Outra promessa repetida em duas campanhas foi o concurso público para estruturar a prefeitura.
Ele nunca veio.
Furlan deixa o cargo sem realizar um único concurso amplo para recompor o quadro permanente da administração.
A única seleção relevante foi para a Guarda Municipal, cercada de críticas e atrasos. E nem mesmo essa chegará ao final sob sua gestão: o prefeito não estará no cargo para dar posse aos aprovados.
No lugar de servidores efetivos, a prefeitura manteve o modelo de contratos temporários e seleções emergenciais.
Enquanto contratos milionários eram assinados, pacientes madrugavam nas filas das UBS.
Relatos se repetiram nos últimos meses:
falta de medicamentos
consultas canceladas
unidades precárias
escassez de profissionais
Entre os casos mais dramáticos estão os de famílias de crianças autistas, que percorreram várias unidades em busca de medicamentos essenciais.
Sem sucesso.
Em um dos episódios investigados, a Polícia Federal acompanhou um empresário ligado à obra do hospital sacar R$ 400 mil em dinheiro.
Segundo o inquérito, os investigadores viram quando o valor foi entregue ao motorista do prefeito, dentro do próprio carro utilizado por Furlan.
A cena passou a integrar a linha de investigação sobre o fluxo financeiro do contrato da obra.
A Operação Paroxismo não é um caso isolado.
Desde 2021, a Polícia Federal realizou operações sucessivas envolvendo setores da gestão municipal:
Carburante (2021) – fraude com recursos da saúde na pandemia
Carburante II (2022) – lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio
Plattea (2024) – suspeitas de propina em obras públicas
Herodes (2024) – ligação de agentes públicos com facção criminosa
Paroxismo (2025/2026) – fraude e lavagem em contratos da saúde
Uma sequência que expõe um padrão de investigações sobre contratos públicos da prefeitura.
Até pouco antes da Paroxismo, aliados do prefeito e jornalistas ligados à gestão elogiavam a Polícia Federal com entusiasmo.
Era a mesma PF que investigava operações de crédito do Banco Master, na chamada Operação Zona Cinzenta. A instituição era citada como símbolo de justiça.
Mas bastou a investigação chegar à prefeitura para que o discurso mudasse.
A Polícia Federal deixou de ser heroína. E passou a ser alvo de críticas. A instituição não mudou. O alvo mudou.
Furlan construiu ao longo da gestão uma imagem performática na política local, conhecida como a do “prefeito do rock doido”.
Mas governos não são avaliados por personagens. São avaliados por resultados. E o balanço administrativo deixa marcas difíceis de ignorar:
sem casas populares
sem concurso público
com a saúde sob denúncias constantes
com operações policiais recorrentes
O espetáculo terminou.
Agora, fora da prefeitura, Antônio Furlan tenta reposicionar seu discurso e se apresenta como pré-candidato ao governo do Amapá.
Mas a política não vive apenas de discursos. Ela também convive com investigações. E os inquéritos que cercam sua gestão ainda estão em andamento.
A Polícia Federal segue analisando contratos, documentos e movimentações financeiras. Como mostram os próprios históricos das operações, essas investigações costumam avançar em etapas, revelando novos fatos e alcançando novos personagens ao longo do tempo.
Por isso, o verdadeiro capítulo final dessa história talvez ainda não tenha sido escrito.
Porque em certos casos da política brasileira, o caminho entre o palanque e o tribunal pode ser mais curto do que muitos imaginam.
E às vezes termina onde nenhum político planejou chegar.
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