Bridgerton e o risco da simplificação narrativa
A nova temporada de Bridgerton aposta em um recurso narrativo ousado: a intertextualidade com o clássico Cinderela. O baile de máscaras, ponto alto do primeiro episódio, eleva a expectativa da audiência ao remeter a um imaginário romântico universal. No entanto, ao fazê-lo, a série simplifica demais seus personagens principais — Sophie Baek e Benedict Bridgerton — e perde a força narrativa apresentada na terceira temporada, quando revelou uma Penélope sagaz, corajosa e capaz de reconhecer o seu desejo e lutar por ele. Foi Penélope quem tomou a iniciativa de dar o beijo de amantes em Colin, gesto subversivo em um universo em que as mulheres aguardavam passivamente serem notadas pelos homens. Penélope é do tipo: eu quero, e se posso, por que não? Colin, por sua vez, não ficou ressentido de ser o marido da grande Lady Whistledown.
Benedict Bridgerton, de todos da família o mais libertino e boêmio, vinha construindo uma complexidade que, de repente, fica reduzida ao clichê do homem arrebatado por uma mulher impossível. Avesso ao estilo de vida aristocrático da família e da alta sociedade, sentia-se deslocado e sem objetivos claros. Era conhecido pelos excessos com bebida e sexo não convencional e desprezava a ideia de se casar, até seu encontro com uma mulher misteriosa no baile de máscaras oferecido por sua mãe, a anfitriã da temporada.
Sigmund Freud, em seu ensaio Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem (1910), realiza uma investigação interessante da vida amorosa dos homens, descrevendo tanto a atitude masculina como as características da mulher alvo do seu amor. Para o pai da Psicanálise, há um tipo de homem que se sente especialmente atraído por mulheres difíceis de conquistar, que fogem à normalidade. É exatamente isso que acontece com Benedict Bridgerton ao observar uma mulher mascarada contemplando o lustre em sua residência. Enquanto todas estão preocupadas em performar, buscando chamar a atenção de algum pretendente, aquela desconhecida parece dar de ombros às expectativas alheias, o que a torna diferente de todas as outras. Esse particular captura o solteirão mais cobiçado da temporada.
A mulher santa e cuidadora
Sophie inicialmente é apresentada como uma mulher corajosa e inteligente. Ela usa vestido e sapatos da madrasta para ir ao baile em que a própria madrasta e suas duas filhas buscariam o melhor partido da temporada de casamentos. No entanto, quando seu pai morre e a madrasta a informa que ela havia ficado de fora do testamento, Sophie aceita como fato sem desconfiança. Quando sua ousadia de ir ao baile é descoberta e ela é expulsa de casa, mais uma vez se conforma ao destino. No chalé de Benedict, quando ele está doente, torna-se sua cuidadora. Depois, no pomar, brinca com ele de empinar pipa.
Aos poucos, vai se desenhando a imagem de uma mulher disposta a sacrifícios, ao cuidado e pueril, sobrepondo-se à de uma mulher versada na história da arte, poliglota e conhecedora do funcionamento das línguas. Ao final dos quatro episódios, temos o clichê da mulher misteriosa e vulnerável que será descoberta e salva por um cavalheiro que se tornará seu herói.
Amor sem erotismo
Freud revela que esse tipo de homem não consegue conciliar, em uma mesma mulher, amor e erotismo. Ele sempre terá mais de uma: aquela que será sua esposa, mãe dos filhos, a rainha do lar, e outras, para satisfazer suas reais necessidades eróticas. A uma ele ama, mas não deseja; às outras deseja, mas nunca amará como esposas. No caso de Sophie e Benedict, resta esperar os próximos capítulos. De qualquer forma, a série perdeu muito ao reduzir a clichês personagens que tinham potencial de render tanto ou mais que Penélope e Colin.
Francisco Neto Pereira Pinto é Psicanalista, Escritor e Professor Universitário. Doutor em Letras, é autor dos livros À beira do Araguaia e Saudades do meu gato Dom. @francisconetopereirapinto
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