O documentário “Anna Karoline III: A história que o rio nunca esqueceu” começa pelo que é impossível ignorar: a memória. Com cerca de 50 minutos, a produção da Duas Telas Produtora Cultural, em coprodução com a Nagib Produções, reconstrói uma das tragédias mais marcantes da região amazônica a partir de relatos inéditos.
Sobreviventes, familiares de vítimas e profissionais que atuaram no resgate conduzem a narrativa. Não há pressa. Há escuta.
O filme se aproxima do chamado “cinema verdade”. E isso significa abrir espaço para o que, muitas vezes, é difícil de assistir. Não há filtros para a dor, nem atalhos para o silêncio que surge entre uma lembrança e outra.
“Podemos dizer que este filme retrata sofrimento, perdas e momentos de grande dor. Mas é uma peça importante para a memória dessas tragédias que acontecem na Amazônia”, afirma o produtor Thomé Azevedo, responsável pelas entrevistas.
A construção da narrativa passa pelos detalhes. O motivo da viagem. O amanhecer que parecia comum. Os minutos que antecederam o que ninguém esperava. E depois, o rompimento. O instante em que o cotidiano cede lugar ao desespero.
Além das vítimas e seus familiares, o documentário incorpora o olhar técnico de quem esteve na linha de frente: equipes da Polícia Técnico-Científica, Corpo de Bombeiros e forças de segurança. Também há espaço para jornalistas que acompanharam o caso, ampliando o registro para além da experiência individual.
O diretor Marcelo Nobre aponta que a obra não se limita a revisitar o passado. Ela tenta provocar.
“Mais do que revisitar o passado, o filme busca reflexão e conscientização. Ele chama atenção para medidas preventivas em viagens fluviais, como a verificação das condições das embarcações e cuidados básicos de segurança”, destaca.
Antes de chegar ao público, o documentário terá uma exibição especial em formato avant-première no Cine Movieland, em uma sessão reservada a familiares das vítimas, autoridades e participantes da produção. Depois, seguirá outro caminho: será disponibilizado gratuitamente no canal oficial da Duas Telas no YouTube.
O projeto foi aprovado no edital nº 003/2023 da Secretaria de Estado da Cultura do Amapá (Secult-AP), por meio da Lei Paulo Gustavo, voltado à produção de telefilmes no estado.
O naufrágio do Anna Karoline III aconteceu no dia 29 de fevereiro de 2020, durante o trajeto entre Santana (AP) e Santarém (PA). A embarcação levava 93 pessoas.
Por volta das 5h da manhã, uma ventania atingiu o navio. Em poucos segundos, tudo acabou.
O socorro especializado só chegou horas depois, por volta das 14h. Tempo suficiente para que a tragédia deixasse marcas profundas.
O inquérito oficial apontou o excesso de peso como principal causa do desastre, comprometendo a estabilidade da embarcação diante das condições climáticas adversas.
Mas há coisas que não se encerram em conclusões.
O documentário tenta tocar justamente nisso: no que permanece.
Porque, na Amazônia, o rio não é apenas caminho. Às vezes, ele é memória.

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