No Vale do Jari, não se fala em outra coisa. Nos bares, nas feiras e nos portos, o nome do homem apontado como mandante da chacina corre de boca em boca. O clima é de expectativa e raiva. A qualquer momento, acreditam muitos, a prisão dele pode acontecer. Para a polícia só falta ligar alguns fios para evitar falhas no inquérito e mandar todos para a prisão.
A brutalidade do crime deixou marcas profundas. Oito homens, todos pais de família, foram executados sem piedade numa área de garimpo ilegal na divisa do Amapá com o Pará. Alguns deixaram filhos pequenos; outros, como Elison Pereira de Aquino, o “Dinho”, deixam também uma esposa grávida, que agora vai enfrentar a maternidade sozinha.
Na lista das vítimas, há histórias de trabalho, sonhos interrompidos e vidas arrancadas à força. Gustavo Gomes Pereira, o “Gustavinho”, tinha um bebê de 1 ano; Dhony Dalton Clotilde Neres, o “Bofinho”, era conhecido pela lida honesta no garimpo legal de Calçoene; Antônio Paulo da Silva Santos, o “Toninho”, era um veterano de 61 anos, respeitado na comunidade. Todos partiram para o Pará acreditando que voltariam com uma negociação fechada. Voltaram apenas como números de mais uma tragédia amazônica.
A operação para encontrar sobreviventes e resgatar os corpos mobilizou dezenas de policiais civis, militares e o Grupo Tático Aéreo (GTA). O delegado-geral César Vieira contou que a força-tarefa agiu rápido quando recebeu a informação de que havia um homem vivo escondido na mata. Ele foi resgatado exausto, mas respirando E narrou detalhes da barbaridade. Será seu depoimento que impediram que o caso fique impune, escondido no silêncio da floresta.
O enredo é típico das disputas sangrentas do garimpo: segundo as investigações, pistoleiros confundiram o grupo com os responsáveis por um assalto que teria levado alguns quilos de ouro da região. A emboscada foi armada e as execuções, sumárias. Duas caminhonetes usadas pelo grupo foram encontradas incendiadas no porto do Itapeuara, ponto estratégico para o transporte de cargas aos garimpos.
A região é um labirinto de rios e mata fechada, onde o crime costuma se esconder sob o silêncio da floresta. Mas desta vez, a indignação fala mais alto. As famílias querem justiça. Viúvas, filhos e irmãos cobram uma resposta rápida. “A gente não pode deixar que isso caia no esquecimento. Ele tem que pagar”, disse um parente que pediu para não ser identificado.
Enquanto isso, as buscas continuam. As polícias do Amapá e do Pará seguem no rastro dos envolvidos. O mandante, dizem no Vale do Jari, já sabe que o cerco fechou.
Linha do tempo da chacina
- 31/7– Quatro homens saem de Macapá e Calçoene rumo a Laranjal do Jari para negociar compra de garimpo.
- 1/8– Grupo parte do porto do Itapeuara para o garimpo do Ipitinga, acompanhado de Luciclei e Paulo da Silva Santos.
- 2/8– Todos seguem para a Serra do Catitu, área da negociação.
- 3/8– Permanecem na região e iniciam tratativas para compra.
- 4/8– Retornam ao garimpo do Ipitinga.
- 5/8– Por volta das 14h20, iniciam viagem de volta e avisam que dariam carona a Elison Pereira de Aquino; contato é perdido logo depois.
- 6/8– Familiares registram desaparecimento; duas caminhonetes são encontradas incendiadas no porto do Itapeuara.
- 7/8– Moradores encontram corpos em mata; força-tarefa intensifica buscas. Nome e foto do suspeito circulam nas redes.
- 8/8– Mais dois corpos são encontrados; um sobrevivente é resgatado pelo GTA.
- 9/8– Polícia mantém buscas e famílias exigem prisão do mandante, que pode ocorrer a qualquer momento.
