Tem gente que acerta o tempo do barco como quem calcula um raio. O casco se aproxima, o motor reduz, e o salto precisa ser preciso, porque o barco não para. E o tempo também não.
Foi assim com Danielson Moura de Melo, 34 anos, natural de Santana, que neste domingo (27) tentou entrar em barco que já seguia viagem pelo rio Matamatazinho, região de Breves, no Pará. Ele vinha de uma comunidade ribeirinha, perdeu o horário da saída, e tentou o que já virou rotina: alcançar o barco em movimento.
Só que a rotina, dessa vez, não se repetiu com final feliz. Danielson pulou de uma embarcação menor para outra maior e desapareceu nas águas. Sumiu entre o impulso e o destino.
A Capitania dos Portos foi acionada, as buscas foram iniciadas, mas até agora, Danielson segue ausente do lado de cá do rio.
E por mais que pareça cena isolada, o que aconteceu tem nome, endereço e frequência. É prática comum nas rotas de Santana para Belém: barcos que não atracam, que apenas “reduzem a máquina”, como dizem, e seguem viagem. Quem quiser embarcar, que corra. Ou que pule. Ou que reze.
Nos trapiches improvisados, não tem placa nem protocolo. Tem acerto de olho, coragem na sola do pé e fé no salto. E, às vezes, tem o contrário de tudo isso.
As autoridades falam em segurança, mas a realidade fala em improviso. E a rotina de embarques em movimento continua, como se fosse aceitável arriscar o corpo inteiro para chegar onde se precisa. Como se o tempo da embarcação valesse mais que o da vida.
Enquanto Danielson não volta ou não é encontrado, a história dele navega de boca em boca, como aviso e como lamento. Porque, na Amazônia, o rio ensina todo dia: tem gente que some tentando apenas chegar.
