A moradora Roberta Costa Tavares, 36 anos, contou A reportagem do De Bubuia como foi o resgate da recém-nascida encontrada atrás da casa da mãe dela no bairro Portelinha, em Ferreira Gomes.
O depoimento dela traz novos detalhes sobre a manhã de 20 de novembro, quando o caso comoveu a cidade. Roberta revelou que o cordão umbilical da bebê havia sido arrancado e descreveu o trajeto até o hospital, em uma corrida que atravessou a parte alta do município até a descida íngreme que leva ao centro.
O choro que parecia vir de um gato
A história começou por volta das 7h da manhã, na Rua da Portelinha, área residencial simples, cercada por quintais e muros baixos.
Clarice Costa Tavares, 22 anos, sobrinha de Roberta, se arrumava para ir ao trabalho em um pequeno comércio local quando ouviu um som fino vindo dos fundos da casa da avó.

“Pensei que fosse um gato. Quando vi, era um lençol branco, manchado de sangue. Puxei o pano e vi o bebê”, contou Clarice à tia, logo antes de correr até sua casa.
“O cordão umbilical estava arrancado”
Roberta diz que imaginou se tratar de um alarme falso, até ver a cena. “O bebê estava coberto de sangue dos pés à cabeça. Quando puxei o lençol pra ver se estava viva, percebi que o cordão umbilical não tinha sido cortado, e sim arrancado. Entrei em desespero”, relatou.
Sem tempo a perder, ela pegou a recém-nascida no colo e saiu pela rua de terra batida pedindo ajuda. “Corri gritando: gente, tem um bebê aqui, abandonaram atrás da casa da mamãe!”, recorda.
Corrida pela vida até o hospital
Ao chegar na esquina, Roberta viu o cunhado José Raimundo Tavares, o “Reco”, subindo na moto para sair.
“Ele achou que fosse brincadeira, mas quando viu o bebê, mandou eu subir na garupa. Fui sem capacete, com ela enrolada no lençol”, disse.
Eles desceram a ladeira da montanha, trecho íngreme que liga a parte alta da cidade ao centro de Ferreira Gomes. “Eu só segurava firme, com medo dela escorregar do pano. Fui rezando o caminho todo”, lembra Roberta.
Na Unidade Mista de Saúde de Ferreira Gomes, a dupla foi recebida pela enfermeira Rosalina, que levou a bebê direto para a sala de parto.
“Ela limpou o sangue, examinou e confirmou o que eu tinha visto: o cordão tinha sido arrancado. A criança estava muito fraca, mas viva”, contou.
Transferência urgente
Após o atendimento inicial, a recém-nascida foi estabilizada e transferida em ambulância para o Hospital Regional de Porto Grande, depois o caso se agravou e ela foi transferida para o Hospital de Santana, onde segue internada.
Profissionais da unidade de saúde local confirmaram que o rápido socorro foi decisivo para salvar a vida da bebê. Se tivesse demorado mais, talvez não resistisse”, afirmou uma fonte da equipe.
Caso segue sob investigação
O delegado Felipe Rodrigues, da Polícia Civil, informou que o caso é investigado como abandono de incapaz.
“Estamos coletando depoimentos e tentando identificar a mãe. Os indícios apontam para um parto sem acompanhamento médico, feito de forma improvisada”, disse.
Nenhum morador da região reconheceu a mulher que deu à luz. “A gente não faz ideia de quem seja a mãe, nunca aconteceu nada assim aqui”, lamentou Roberta.
Enquanto a investigação prossegue, a bebê segue sob observação em Macapá. O Conselho Tutelar de Ferreira Gomes acompanha o caso e deve decidir sobre o encaminhamento da criança após alta médica.
