A morte de Thamires França dos Santos, encontrada neste domingo (18) assassinada na Linha E do Km9, não é apenas mais um registro policial. Para uma mãe é o fechamento brutal de um ciclo que começou anos antes, quando o primeiro filho caiu e o luto ainda parecia provisório.
Thamires tinha 19 anos. Morreu com pelo menos três tiros na cabeça. A polícia investiga.
Mas a história dessa família não começa na Linha E.
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2019: quando o alerta passou despercebido
Em setembro de 2019, Wendel França da Gama, então com 19 anos, conhecido como “Sette Belo”, foi preso duas vezes em menos de 24 horas no Macapaba 2. Apreenderam sementes de maconha, depois uma arma falsa. Ele foi liberado.
Na época Thamires tinha 12 anos. A mãe ainda tinha três filhos vivos. Ainda havia a ilusão de que tudo poderia parar ali.
Não parou.
2021: o primeiro luto definitivo
Em julho de 2021, Weviny França da Gama, o “Avatar”, morreu aos 20 anos durante confronto com a Polícia Militar em uma área de mata atrás do Macapaba 2. Era suspeito de roubo de motocicleta.

Quando o corpo voltou para casa, Thamires tinha 14 anos. Foi ali que a dor deixou de ser medo e virou certeza. Foto: Portal Seles Nafes
2023: o segundo filho não voltou
Dois anos depois, em maio de 2023, foi a vez de Wendel, conhecido como “Sette Belo”. Aos 23 anos, morreu em confronto com o Bope, também no Macapaba.
Naquele momento, Thamires tinha 16 anos.
Dois filhos enterrados.
Dois boletins. Duas vezes em que a mãe precisou aprender a respirar depois do enterro. A dor de enterrar dois filhos.
Na perna, Thamires tatuou os nomes dos irmãos. Não como moda. Como memória. Em novembro de 2025, Thamires, aos 18 anos, foi presa durante uma ação policial. Com ela, drogas e munições de calibres restritos. Confessou o tráfico. Disse pertencer a uma organização criminosa. Disse também que os irmãos faziam parte da facção. Talvez fosse confissão. Talvez fosse herança. Talvez fosse só o resultado de crescer cercada pela ausência.
A última perda
Na Linha E do Km 9, Thamires morreu aos 19 anos. A polícia apura a ligação dela com um detento custodiado no Instituto de Administração Penitenciária (Iapen) e um possível envolvimento amoroso com o irmão dele. Um triângulo perigoso, onde relações pessoais e crime costumam se misturar.

A investigação segue. Prisões virão. Para a mãe, nada disso devolve o que foi perdido.
O que sobra depois da estatística
No Macapaba, a violência costuma aparecer em estatísticas, relatórios e boletins.
Para essa mãe, ela se materializa em fotografias guardadas, nomes que não serão mais chamados e lugares vazios à mesa.
O Estado segue contando números. Ela segue contando ausências.
