Por décadas, o volante parecia um destino distante para quem não ouvia. No Amapá, essa realidade começou a mudar nesta semana. O Departamento Estadual de Trânsito do Amapá (Detran-AP) promoveu, em Macapá, a primeira prova prática de direção inteiramente acessível para pessoas surdas, conduzida do início ao fim com atendimento especializado em Língua Brasileira de Sinais (Libras). O exame representa não apenas um passo técnico, mas simbólico na luta por igualdade de direitos.
Sem abrir mão do protocolo padrão, o teste teve três fases: acolhimento, baliza e percurso urbano. A diferença crucial esteve no acompanhamento. Eva Tenório, examinadora do Detran-AP habilitada também como intérprete de Libras, garantiu comunicação fluida e segura. Todas as orientações — desde a chegada do candidato até as manobras no trânsito — foram realizadas em Libras.
“Estamos rompendo barreiras e estabelecendo novos padrões de inclusão. Esta iniciativa demonstra o compromisso do órgão com a acessibilidade plena”, afirmou Eva, visivelmente emocionada.
A protagonista da estreia foi Sailloane Alandia, primeira candidata surda a realizar o exame no novo formato. Aprovada, ela classificou o momento como libertador. “Foi fundamental ter uma examinadora que também é intérprete de Libras. A comunicação fluida tornou todo o processo mais acessível e me deixou totalmente segura durante a prova”, destacou.
A iniciativa está alinhada à Lei Brasileira de Inclusão (nº 13.146/2015) e às diretrizes do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que orientam políticas públicas para pessoas com deficiência. No Amapá, a ação integra o Plano de Gestão do governo estadual, voltado a tornar serviços públicos mais inclusivos.
Além do atendimento em Libras, o Detran-AP já emprega desde dezembro de 2024 o sistema de telemetria veicular nos exames práticos. A tecnologia monitora em tempo real fatores como uso de cinto, acionamento das setas, velocidade, distância segura e respeito à sinalização, assegurando avaliações mais precisas e passíveis de auditoria.
No balanço da instituição, não se trata apenas de cumprir leis, mas de abrir caminhos. “Mais do que habilitar motoristas, estamos habilitando direitos. Isso é cidadania”, resumiu um técnico do órgão.
A expectativa agora é que o modelo se torne rotina e que outros estados sigam o exemplo, ampliando horizontes para quem, até então, encontrava barreiras invisíveis atrás do volante.
