Macapá é cidade de chegada. Gente que cruza o rio trazendo sacola, endereço anotado no papel e alguma esperança no bolso. Mas, às vezes, a cidade não recebe: cobra. E cobra com bala, faca e silêncio.
O que há em comum entre quem acaba de chegar
São três mortes. Três histórias que não se cruzaram em vida, mas se encontraram no mesmo ponto final.
A mais recente aconteceu em 20 de dezembro, no Congós. Antes dela, duas execuções em julho - Reginaldo, no dia 24; Rogeth, no dia 19. Todos recém-chegados. Todos mortos em áreas dominadas por facções.
Lucas Alfredo da Silva tinha 21 anos e veio de Breves, no Pará. Chegou numa sexta-feira. Morreu no sábado. Veio atrás de emprego, promessa simples, dessas que não cabem em edital nem em carteira assinada. Morava provisoriamente na casa do sogro, na zona sul, quando foi rendido.
Sentaram Lucas no chão. Atiraram cinco vezes na cabeça. Faca antes, bala depois. Filmagem durante. O corpo, jogado no lago. A morte não foi só fim, foi aviso.
Por que a morte precisa ser filmada
Nada ali foi improviso. A câmera faz parte do crime. O vídeo correu rápido, como recado que não precisa de legenda.
Filmar é linguagem. É o tribunal informal que não aceita recurso. A mensagem é simples: quem cruza a fronteira errada paga com o corpo.
As vozes no vídeo parecem jovens. Meninos executando meninos. Não há heroísmo, só repetição. A violência já não precisa de raiva, funciona no automático.
Reginaldo e Rogeth: quando o recomeço vira sentença
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Em julho, a cidade já tinha dado sinais.
Reginaldo Costa Ferreira, 20 anos, saiu de Afuá para tratar da saúde. Visitava a irmã na área de pontes do Congós quando três homens o chamaram pelo nome. Levaram-no até o fim da ponte. Cinco tiros na cabeça. Quatro facadas no peito. O rio ali perto, indiferente.
Quatro dias antes, no Araxá, Rogeth Cardoso de Souza, 29 anos, estava havia apenas quatro dias em Macapá. Pouca bagagem. Talvez planos. Oito tiros interromperam qualquer tentativa de futuro, três deles na cabeça.
Nenhum dos dois era da cidade. Ambos morreram onde impera a lei que não está escrita em placa nem em decreto.
Eles eram estranhos ou estavam fugindo?
A pergunta atravessa julho e dezembro sem resposta.
Foram mortos por serem “estranhos” em território marcado? Ou porque tentavam fugir de algo que os alcançou mesmo depois do rio?
Em áreas dominadas por facções, o desconhecido vira suspeito. O recém-chegado vira risco. E o risco é eliminado antes de perguntar o nome completo.
O silêncio que sustenta o ciclo
A polícia investiga. Os processos caminham. Até agora, ninguém foi preso pelos assassinatos de Reginaldo e Rogeth. As famílias choram longe dos holofotes. A vizinhança aprende a não ver. O telefone do 190 espera coragem.
Macapá acorda. O comércio abre. O trânsito flui. Os vídeos somem nos grupos. A morte vira estatística. O medo, rotina.
Denúncias podem ser feitas, mesmo de forma anônima, pelo 190.
