O silêncio também envelhece. E, às vezes, leva quinze anos para encontrar coragem.
Em Santana, a 17 quilômetros de Macapá, uma jovem decidiu romper o segredo que atravessou sua infância. Procurou a mãe, contou o que carregava desde os cinco anos e pediu ajuda para fugir. No último sábado (7), o padrasto, de 35 anos, foi preso pela Delegacia de Atendimento à Mulher.
Segundo a Polícia Civil, os abusos teriam começado quando ela ainda aprendia a escrever o próprio nome. Aos 15 anos, engravidou e teve um filho do agressor. Já adulta, aos 20, encontrou forças para interromper o ciclo.
O que acontece quando o medo mora dentro de casa?
Na comunidade de Piaçacá, zona rural de Santana, o cotidiano seguia como qualquer outro. Mas, segundo as investigações, dentro da casa havia controle e isolamento. A ex-companheira relatou que não desconfiava do comportamento “protetor” do marido. Ele impedia a enteada de namorar, ter vida social ou até possuir celular.
Quando descobriu o desaparecimento da jovem, o acusado teria reagido com ameaças. Conforme o inquérito, ele teria ameaçado a ex-companheira com uma faca e dito que mataria quem estivesse ajudando a enteada. Depois, teria afirmado que tiraria a própria vida.
Como a rede de proteção age em casos de violência?
A prisão preventiva foi solicitada pela delegada Katiúscia Pinheiro e cumprida por policiais civis com apoio do Conselho Tutelar e de um oficial de Justiça. Cinco crianças estavam sob responsabilidade do investigado no momento da prisão.
Quatro foram entregues à atual companheira dele. A quinta é o filho que ele teve com a enteada, agora sob os cuidados da mãe da jovem.
O homem foi indiciado por ameaça, estupro de vulnerável, violência doméstica e posse ilegal de arma de fogo.
Entre documentos, depoimentos e diligências, a investigação segue. Mas há algo que já não volta ao lugar: o silêncio.
Porque, quando uma vítima fala, não é só um crime que vem à tona. É uma história inteira que pede justiça.

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