Na tribuna do Senado, nesta segunda-feira (13), o governador Clécio Luís não discursou apenas sobre educação. Ele falou sobre o Amapá, lembrando que ensinar na Amazônia é um ato de coragem. Porque aqui, alfabetizar não é só juntar letras: é remar contra a maré do abandono.

O governador viajou a Brasília para receber a Comenda Governadores pela Alfabetização das Crianças na Idade Certa, concedida pelo Senado Federal e Ministério da Educação. O reconhecimento foi motivado pelos resultados do Índice Estadual de Alfabetização, que colocaram o Amapá entre os estados que mais avançaram no país.
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“Fazer educação na Amazônia é um ato de coragem”
No discurso que marcou a entrega da Comenda Governadores pela Alfabetização das Crianças na Idade Certa, Clécio levou ao centro político do país um retrato que o Brasil raramente enxerga: a sala de aula ribeirinha, o professor de catraia, a escola que depende da maré.
“Fazer educação na Amazônia é um ato de coragem”, disse ele, com a voz de quem conhece o som dos remos e o silêncio das distâncias.

Mas entre a emoção e o aplauso, havia também denúncia: tudo custa mais, demora mais e exige mais, e mesmo assim os estados amazônicos continuam subfinanciados.
Clécio chamou isso de “Fator Amazônico”, uma ferida antiga do Norte que Brasília ainda não aprendeu a tratar.
Números com rosto, dados com alma
Ao apresentar avanços, o governador humanizou as estatísticas: O Amapá saltou de 41,5% para 46,6% de crianças alfabetizadas na idade certa, um avanço real, mas ainda longe da justiça que ele defende.

“Esses números têm rosto, nome e alma amazônida”, disse. E citou quem faz o milagre diário da alfabetização: a professora que atravessa o rio de catraia, o técnico que enfrenta estrada de barro, o educador indígena que ensina sem apagar a própria cultura.
O pacto que veste a camisa do Amapá
Em seu discurso, Clécio destacou o Colabora Amapá, programa que une Estado e prefeituras em um mesmo pacto pela alfabetização. “Ninguém fica para trás”, afirmou.
O regime de cooperação levou formação, recursos e acompanhamento pedagógico a todos os 16 municípios amapaenses, um feito raro de gestão integrada em tempos de fragmentação política.
Ao mencionar as escolas indígenas e as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), Clécio ampliou o debate: alfabetizar na Amazônia é também defender modos de vida, valorizar línguas e narrativas que resistem há séculos.
O custo da educação onde as ruas são rios
O governador lembrou que o Amapá mantém escolas indígenas até em território paraense, custeadas com recursos próprios. “As fronteiras administrativas não podem ser obstáculos à cidadania”, disse, numa fala que uniu geografia e justiça social.
Mas também alertou: voar até o Tumucumaque custa mais caro que governar muitas capitais, e ainda assim o Estado não recebe financiamento compatível com sua realidade.
Foi um recado direto ao Senado: a educação amazônica paga caro por ser esquecida.
Quando alfabetizar é semear futuro
Clécio agradeceu professores, prefeitos, técnicos e parceiros como MEC, Unesco e Fundação Lemann, reforçando que o Amapá vive uma transformação silenciosa e coletiva.

“Ensinar é semear futuro”, disse, citando o povo que veste a camisa do Amapá, um time que vai do gestor ao barqueiro.
E concluiu:
“No coração da Amazônia, há um estado pequeno, mas imenso em sonhos e coragem. Quando um povo escolhe o conhecimento, ele transforma seu destino.”
O Amapá que lê o próprio futuro
O discurso terminou como começou: com emoção e pertencimento. Entre os aplausos do plenário e as histórias invisíveis de quem ensina nas margens, o Amapá mostrou que alfabetizar é também resistir.
Que há grandeza em cada escola que não desiste, mesmo quando o barco atrasa, o combustível falta ou o salário demora.
