A inauguração da Escola Municipal Goiás, marcada para esta sexta-feira (30), às 9h, não nasceu de planejamento nem de prioridade espontânea da gestão municipal. A obra só avançou depois de denúncias públicas feitas por mães, pressão da comunidade do bairro do Coração e a atuação direta do Ministério Público.
Sem essa mobilização, a escola teria seguido o mesmo destino de outras unidades da rede municipal, como as escolas Jardim Felicidade e Amapá, que permanecem com problemas estruturais e sem solução definitiva.
A denúncia que tirou a escola do abandono
Em 18 de outubro de 2024, moradoras gravaram vídeos denunciando o abandono da Escola Municipal Goiás. As imagens mostravam um prédio deteriorado e relatos de crianças obrigadas a estudar longe da própria comunidade por falta de condições mínimas.
No vídeo que ganhou repercussão nas redes sociais, a moradora Maria José fez um apelo direto ao prefeito.
“O senhor faz tanto show e esquece das escolas. Deixe um pouquinho os shows e construa nossa escola.”
A denúncia expôs uma realidade que vinha sendo ignorada desde o início da gestão do prefeito Antônio Furlan.
Ministério Público confirmou a precariedade
Sete dias após a denúncia, em 23 de outubro de 2024, o Ministério Público do Amapá esteve no local. A Promotoria de Justiça de Defesa da Educação constatou abandono, depredação e total inadequação da antiga estrutura da escola.
Diante disso, foi instaurado procedimento para cobrar do município a construção de um prédio próprio, com possibilidade de ação civil pública.
Ordem de serviço veio só depois da pressão
Somente após a repercussão das denúncias e a atuação do Ministério Público a Prefeitura de Macapá assinou a ordem de serviço em 21 de novembro de 2024.
Na ocasião, a gestão anunciou um investimento de R$ 2.605.513,55, com prazo oficial de 120 dias para reconstrução e ampliação da unidade. O projeto previa uma escola com 1.605,89 m², dez salas de aula, biblioteca, sala de AEE, refeitório, banheiros acessíveis e estrutura para atender 448 alunos do ensino fundamental e da EJA.
O que foi anunciado e o que foi pago
Os dados do Portal da Transparência mostram, no entanto, que a execução financeira da obra seguiu um ritmo diferente do avanço físico.
Entre novembro e dezembro de 2024, período em que nenhuma intervenção estrutural relevante havia sido realizada, a empresa responsável já havia recebido R$ 509.392,80, o equivalente a 19,5% do valor total anunciado na ordem de serviço. Nesse intervalo, os serviços se limitaram à instalação de tapumes, placa indicativa e retirada de entulho.
📊 Medições e valores pagos na obra da Escola Municipal Goiás
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Medição |
Período de referência |
Valor pago (R$) |
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1ª medição |
nov/dez 2024 |
509.392,80 |
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2ª medição |
abr/jun 2025 |
239.657,46 |
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3ª medição |
jun/2025 |
418.786,60 |
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4ª medição |
jun/jul 2025 |
346.325,50 |
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5ª medição |
jul/2025 |
259.612,18 |
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6ª medição |
jul/ago 2025 |
179.547,78 |
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7ª medição |
ago/set 2025 |
426.764,83 |
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8ª medição |
set/nov 2025 |
868.609,43 |
Total pago: R$ 3.248.696,58
Ao final das medições, o valor total pago pela obra chegou a R$ 3.248.696,58, superando em R$ 643.183,03 o valor divulgado na assinatura da ordem de serviço. A diferença evidencia um descompasso entre o anúncio inicial da prefeitura e o custo efetivo da obra.
Linha do tempo dos pagamentos da Escola Goiás
Ao todo, foram registradas oito medições, com pagamentos realizados entre novembro de 2024 e novembro de 2025, enquanto a obra só ganhou ritmo efetivo após sucessivas cobranças da comunidade. Não se tem informações se terá mais pagamentos.
A sequência dos repasses reforça a percepção dos moradores de que, sem pressão social e fiscalização externa, a escola teria permanecido apenas como promessa.
Inauguração ocorre, mas problemas antigos permanecem
A inauguração da Escola Municipal Goiás acontece nesta sexta, mas a entrega do prédio não resolveu um problema histórico do bairro: o alagamento crônico da praça bem em frente à escola.
O problema já existia antes da obra e nesta semana a prefeitura, em virtude da inauguração tapou alguns buracos da rua, mas esqueceu do problema principal.
Quando a pressão vira política pública
A nova sede da Escola Municipal Goiás é uma conquista da comunidade do Coração, mas também um retrato de como políticas públicas têm avançado no município: só depois de denúncia, exposição e cobrança formal.
Para moradores e mães de alunos, a escola representa uma vitória coletiva. Ao mesmo tempo, serve de alerta para outras comunidades que convivem com escolas abandonadas e reformas prometidas, mas que seguem à espera de atenção do poder público.

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