Por alguns dias, Ferreira Gomes acreditou ter sido cenário de um milagre.
Um choro de bebê encontrado atrás de uma casa virou símbolo de solidariedade e esperança. Mas, como nas histórias mais humanas, a verdade esperou o tempo certo para nascer e, quando veio à tona, trouxe junto a dor e o medo.
A primeira história
Na manhã do dia 20 de novembro, o som fino que parecia vir de um gato acordou o bairro Portelinha.
Clarisse, apressada para ir ao trabalho, seguiu o instinto e encontrou uma recém-nascida envolta em um lençol branco.
Foi ela quem chamou a tia, Roberta Costa Tavares, que acreditou ter salvado uma criança abandonada.
O caso correu o estado como um rastro de espanto. A cidade chorou, rezou e se comoveu com a imagem da bebê que havia sido deixada sozinha no mundo ou pelo menos, era o que se pensava.
Uma história que se reescreve
Três dias depois, a mesma mulher que se apresentou como salvadora ligou à reportagem para dar mais detalhes.
Falava com emoção, ainda sem saber que a verdade estava dentro da própria casa.
Foi só na terça-feira (25) que a Polícia Civil confirmou: a mãe da bebê era Clarisse, a jovem que primeiro disse tê-la encontrado. Ela havia escondido a gravidez, deu à luz sozinha em seu quarto e, tomada pelo medo e pela dor, inventou o abandono.
“Ela entrou em trabalho de parto sozinha, por volta das 9h da manhã. O cordão se rompeu, e em estado de choque ela deixou o material nos fundos da casa”, explicou o delegado Felipe Rodrigues.
Medo, silêncio e solidão
A versão que parecia improvável virou confissão.
Clarisse contou que viveu a gestação escondida, talvez por vergonha, talvez por desespero.
Sozinha, deu à luz em um parto improvisado, entre lençóis e lágrimas. O sangue, o medo e o barulho do próprio coração foram suas únicas testemunhas.
No pavor, inventou uma história. Disse ter achado a criança no quintal, e a notícia correu mais rápido que o alívio.
Ferreira Gomes acreditou, e o Amapá também. Mas por trás do que parecia um crime, havia apenas uma mulher tentando sobreviver a si mesma.
Duas histórias
A bebê segue internada, estável, em Macapá. A mãe passou por exames físicos e psicológicos em Porto Grande, onde segue internada.
A Polícia Civil avalia o caso com cautela, considerando o sofrimento mental envolvido.
Clarisse pode responder por falsa comunicação de crime e exposição de recém-nascido, mas há quem diga que o maior julgamento já foi o que ela mesma enfrentou: o de encarar o espelho e admitir o medo.
Um desfecho humano
Ferreira Gomes, que chorou pelo abandono, agora se vê tocada por uma verdade mais profunda: nem sempre a dor tem vilões, às vezes só tem vítimas.
A cidade respira mais devagar, como quem aprende que toda história tem dois nascimentos o da vida e o da verdade.
Quanto a Clarisse a investigação segue.
A imagem que o De Bubuia não mostrou
A equipe do De Bubuia teve acesso, com exclusividade, à foto da mãe envolvida no caso. Mas, por respeito à sua condição emocional e à integridade, optou por não publicá-la. Porque algumas verdades não precisam de rostos para doer.
